Disco Demência (2016)

by Hierofante Púrpura

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about

por Jr. Bellé

A DEMÊNCIA EM HIEROFAUSTO PÚRPURA
Uma análise onírica em cinco atos

Acenda um cigarro da fábrica falida de Fausto. Empunhe uma pistola
lírica. Mergulhe na noite púrpura: Disco Demência. O novo álbum da
banda de Mogi das Cruzes é a trilha sonora póstuma para o clássico de Carlos Reichenbach, que caso estivesse vivo refumaria seu Filme Demência enrolando-o em cânhamo e papoula, e o lançaria no prelo da madrugada numa versão distorcida como a guitarra de Gabriel Lima e dolorosa como os gritos de Danilo Sevali. Mesmo Goethe, autor original dessa saga, aproveitaria a brecha para samplear o baixo de HelenaDuarte em O Óxido da Rotina, e então oxidar.

Com suas cinco faixas, o Disco Demência marca os 11 anos de estrada da Hierofante Púrpura: Cachorrada, Acalenta Lua, Baratas (elas continuam as mesmas), Colapso Colorido e o Óxido da Rotina. A melodia inicial de Cachorrada, que abre o disco, me lembrou imediatament e o pianão de Sujeito Sem Brio, do álbum Adubado. A diferença é que os pulguentos não têm só os dentes afiados da fritação, têm também um certo suingue, um molejo novo – quem diz que Hierofante não é dançar nunca foi cachorro nem cadela, nunca roeu o osso e nem mijou na esquina de uma dor demente. Nunca latiu pra lua. Nunca rosnou pro espelho - “não existe nenhum gênio sem um toque de demência”, disse o cara-pálida Sêneca. Lembre disso.

Venha cá, se achega, se ajeita nessa vida, seu lóki. Acalenta Lua, minha preferida do disco, tem nos tambores meio astrais, meio jazz, de Rodrigo Silva, seu charme maior. O repique da caixa vai ganhando o tom e convidando os lamentos deste cão vagabundo, deste Lima selvagem e doce uivando pro céu, a ecoar e ecoar e ecoar e equalizar sua guitarra, que abandona a timidez, se mostra, se desprende e distorce os acordes finais como as ondas de um maremoto distorcem a imagem da Lua numa noite clara, bem no meio do mar, se erguendo no horizonte como um monumento à sanidade distante. É aqui que Fausto mergulha naescuridão da metrópole, onde se esgueiram os ratos, onde corre a sarjeta, onde as baratas continuam as mesmas.

É lá, onde estão as Baratas, que a mansidão se faz presente, que o sossego mais primitivo se esconde, como os vícios, e atende pelo nome de Mefisto – dá pra sentir pelo lounge psicodélico do tom havaiano da guitarra, que vem e vai qual uma brisa calma, um vento de chuva, desses que anunciam tempestade. E ela chega em breve. E fica: notas voando num sopro de deus, acordes rodando em espiral, bumbos caindo como trovões, furacões graves começando nesse baixo sêneco. E mesmo depois da calmaria, as Baratas seguem curtindo com a nossa cara, cuspindo na nossa cara.

Mas naquela praia, na beirada de Mira-celi, ninguém dá um passo, o Colapso Colorido não é um arco-íris que se pinta na garoa fina, é denso e agressivo como o baixo de Helena, crescendo rápido e sorrateiro sobre o berro agudo da guitarra e o gralhar das baquetas nos pratos. Ele aparece assim, na madrugada, naquele violeta que sangra o céu da aurora. Que esfria a alma. Que oxida a rotina.

É O Óxido da Rotina que encerra o Disco Demência, gravado ao vivo no estúdio Mestre Felino – é o que se espera de uma banda de rock, e um pouco mais: ela é mantrica, como se cada dia fosse um fonema (ou um acorde de guitarra) e seu passar, e seu pesar, que nada mais é que a rotina, se tornasse o mantra dos descabidos. A voz de Sevali - nos sussurros quase inaudíveis e nos gritos furiosos – se encarrega disso: bicho, desse jeito a minha cabeça frita. E você me faz chorar,

hierofausto púrpura.

credits

released October 28, 2016

Hierofante Púrpura:

Danilo Sevali: Voz, Teclas, Guitarra Barítono
Helena Duarte: Baixo, Voz
Gabriel Lima: Guitarra Lead, Voz
Rodrigo Silva: Bateria

Participações especiais de Dinho Almeida (chorus em "Acalenta Lua" e "Colapso Colorido"), Paulo Barnabé (voz em "Baratas"), Victor Vieira-Branco (Vibrafone em "Colapso Colorido) e Jonas Morbach (chorus e percussões em "Cachorrada" e frituras ritualísticas em "O Óxido da Rotina")

Arte da capa por Renan Cruz
Produzido por Hierofante Púrpura e Jonas Morbach
Produção Executiva Mestre Felino
Gravação, mixagem e masterização por Jonas Morbach

Gravado ao vivo em plataforma analógica (16 track 1inchTape) no estúdio Mestre Felino em Dezembro de 2015, Mogi das Cruzes (SP-Brasil)

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Hierofante Púrpura Mogi Das Cruzes, Brazil

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Track Name: Cachorrada
letra: Danilo Sevali
arranjos / música: Hierofante Púrpura

É coisa,
pra minha
Cachola (bis)

É muita coisa pra minha cachola,
um prejuízo 
o tal do rala e rola
(repete)

Minha mãe me falou:
que essa MERDA de banda
não vai me render 
um só puto!
enquanto ela praguejava,
fui me tornar vagabundo.

Minha mãe perguntou:
se esse tal rock indie,
são um bando de CÃO SEM DONO!
pose de gente letrada
seremos a 
banda do ano?
Track Name: Acalenta Lua
letra: Gabriel Lima
arranjo / música: Hierofante Púrpura

É uma Lua,
é uma lua...
que eu nunca senti
que eu nunca me permiti
(repete 3x)

Venha cá,
se achegue lá. (bis)
aaaaaaahh ahhhh aaahhhh

Que eu nunca,
Que eu nunca!
nunca senti...
Track Name: Baratas (elas continuam as mesmas)
letra: Danilo Sevali
arranjo / música: Hierofante Púrpura

Eu disfarço o vício,
escondo, omito
para não causar confusão.
Isso diz muito a respeito,
sobre esse meu jeito
passivo de ser.

Não sou bem vindo,
e nem mesmo finjo
ser alguém que não posso ser.
Devolvo o troco 
e desfiro o soco
no olho que julga ter poder
sobre mim
sobre mim, sobre mim, sobre mim...

sobre mim.

Sendo assim me escapou 
o que eu tinha de bom
tinha de bom, tinha de bom, tinha de bom
Sendo assim me escapou (o que eu tinha assim)
o que eu tinha de bom...

mas você segue cuspindo na minha cara
mas você segue curtindo com a minha cara
Track Name: Colapso Colorido
letra: Danilo Sevali
arranjo / música: Hierofante Púrpura

Sabe olha só,
eu estou cansado
desse colapso
Colorido e Derramado.
Sinto o meu corpo abatido
sinto um olhar quadrado,
estupefato
eu já estou farto 
desse fardo
de dor.
fardo de dor.

Olha, veja bem
quem sou eu?
eu não sou ninguém...
sou alguém.
Sou alguém de fino trato,
emoldurando mil retratos
apenas
um ordinário relato 
de uma vida sem calor.

A uma fria alma me compara 
foi num sonho, 
que antevi tal frase
que eu antevi (x2)
Eu vou ler você
Te madrugar!
compulsiva-mente.

Medíocre ato
se te pego te capo!
e te afundo num lago
ou te escondo no mato
para enfim,
fugir
sem fingir
sorrir
Track Name: O Óxido da Rotina
letra: Danilo Sevali
arranjo / música: Hierofante Púrpura

Vai vai vai vai
vai vai ooohmm

Vai vai dia
vai!
noite voa
me envia
Por mais e mais dias
ai,
Rotina.

Vai vai dia
vai!
as tardes voam,
me guia
Por mais e mais dias
ai,
Rotina.

E quanto de luxo eu espero
me espelho, tolero
mas eu venero
a minha cabeça frita!
Ao som de fundo
escuto o meu defunto
vibrante,
contente,
e cantando que nem Sabiá.
Com votos de fé e coragem
os meus pais,
eles já estão no céu...
Acuado
só escuto calado
aquela velha ladainha que me faz:

chorar.
(ele vai chorar)